segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ultramar

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Daqui
Os navios a noite são como foguetes
E a cidade é uma cascata de luz
pra dentro d'água
Eu piso
um caminho negro sobre o sal
querendo abrir os olhos
Nesse movimento quieto
De cruzar os mares
Pra chegar mais perto
Eu volto pra casa
E encontro meu rebanho
preso ao teto
Como se existissem para voar
mas lhes faltasse o desejo
Deito na cama
Sonho amor e ódio
E espero sempre
um corpo morto
no fundo da baía
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Passo Rápido

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A vida nesse espaço
brota na contradança
O meu recuo frente 
à saliência
O meu avanço
na direção da brecha
Cair no buraco
Numa rua de Mileto
É querer o buraco
Desvelar o ouro do erro
Dentro do meu ato
No vagão de um trem
Sumindo num túnel
No seio da terra
Eu cedo um assento
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domingo, 14 de junho de 2015

Já choramos

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Esse amor eu vou mijar
Se houver alguma gota
Me move agora a minúcia
de separar e deitar fora
Excretar
No ritmo orgânico de alguma flora
N'algum mito de divisão de águas
Algum deitar fora que nos daria a vida

Secar essa fonte
não poderia
Represar
nao caberia

Esse sangue estanca
Esse rumo chega
Quanto tempo dura uma mangueira?
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A revista #3

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Pirotecnia
Alguém cozinhando
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O gesto (para Kandinsky)

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O gesto da palavra
resulta as vezes
em outra
dentro dela
Na polpa
encontro às vezes
..................a casca

Dentro do quadro
ele gostava de estar
Dentro da sala
também me sinto lá
sob meus pés
uma floresta
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A revista #2

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O equívoco
é o apelo de uma voz
equivalente
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A revista #1

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Maré
A lua é
A força dos mares
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Eu tenho


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Eu tenho medo da impressão
Escrevo tanto eu quanto as pedras
no chão
Nem sei quantas estão lá
Nem elas sabem que estão
Que sei eu de mim?
Que sou feliz?
Um dia sim, um dia não...
Seria melhor que me deitasse
Disfarçadamente
Me fingisse de grão
Bem menor que elas
Sua menor medição
..
..
..

Mil

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Mil tons
tem a boca da noite
A garganta da mata
não sabe do medo
Antes
é amiga da sombra:
o leito do descanso
E esse homem
é aquela noite veloz
Cem dentes com voz
Dez anos de sono
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Nada

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Nada nela é reto
resta o remo, o barco
o arco de suas pernas
penas em um rato

O rito de subir a nado
a rota de sabor do rio
(rói a nossa paciência magra)
um mapa feito à fios

Ele já dizia:
espera,
uma árvore frondosa não cresce
da noite pro dia

Ela rodou e entrou no chão
Chamei deus ou quem valesse
Velei toda decisão
Desci no metrô, linha treze

O que deixei na estação?
Curvilínea, sinuosa, labiríntica,
meandrosa, onírica,
fantasmagórica
Minha pressa nos trilhos, no vão
..
..
..


Ingenuidade

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Não,
eu não podia me enganar assim
com uma criança qualquer
que veio ao mundo bem depois de mim
Eu não reclamo o que ela fez
só condeno a mim mesmo
por ter me enganado outra vez
Eu fiz o papel de um garotinho
quando arranja a primeira namorada
Na ingenuidade acredita em tudo
porque do amor não entende nada
Eu que tantas vezes machuquei meu coração
e levei tantos anos pra curar
fui tornar a molhar meus olhos
coisa que eu luto a tanto tempo pra enxugar
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.  (caetano veloso)

E a vida seguiu

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