domingo, 4 de setembro de 2016

Entre o sono e a areia

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Num piscar de olhos
uma memória com aquele azul que a distância tem
conduziu-me num leito de esteira
entre o sono e a areia

veloz como um raio
um signo de vento
mostrando os pulmões e as narinas do teu cavalo bandido
o dia do rapto

condensou como um rubi
o cristal da tua íris
o dia em que te vi
hoje essa escrita já morreu

a tinta se apagando
enfraquecendo sob o selo de um anel que eu perdi
afundou
ninguém se foi
a duna que chegou

em uma futura arqueologia dos diálogos
vai ressurgir a figura de um deus
pagão, obviamente
domava os ares
montava um furacão
em um braço carregava o seu escudo
com o outro erguia grave um chifre furado
ao pé da imagem um dente de leão
e breve, um ditado:
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sábado, 26 de março de 2016

O Âmbar

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No deserto eu vi dentes de cobre
Raios saindo da boca dos nômadas
E o sol
me deu uma constelação nas costas

Tudo isso me caiu sobre os olhos
um cisco como a realidade (ou o contrário)
Foi um deus maior
Generoso como um astro
Com prata nos ombros
e um presente de luz mineral
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ultramar

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Daqui
Os navios a noite são como foguetes
E a cidade é uma cascata de luz
pra dentro d'água
Eu piso
um caminho negro sobre o sal
querendo abrir os olhos
Nesse movimento quieto
De cruzar os mares
Pra chegar mais perto
Eu volto pra casa
E encontro meu rebanho
preso ao teto
Como se existissem para voar
mas lhes faltasse o desejo
Deito na cama
Sonho amor e ódio
E espero sempre
um corpo morto
no fundo da baía
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Passo Rápido

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A vida nesse espaço
brota na contradança
O meu recuo frente 
à saliência
O meu avanço
na direção da brecha
Cair no buraco
Numa rua de Mileto
É querer o buraco
Desvelar o ouro do erro
Dentro do meu ato
No vagão de um trem
Sumindo num túnel
No seio da terra
Eu cedo um assento
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domingo, 14 de junho de 2015

Já choramos

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Esse amor eu vou mijar
Se houver alguma gota
Me move agora a minúcia
de separar e deitar fora
Excretar
No ritmo orgânico de alguma flora
N'algum mito de divisão de águas
Algum deitar fora que nos daria a vida

Secar essa fonte
não poderia
Represar
nao caberia

Esse sangue estanca
Esse rumo chega
Quanto tempo dura uma mangueira?
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A revista #3

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Pirotecnia
Alguém cozinhando
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O gesto (para Kandinsky)

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O gesto da palavra
resulta as vezes
em outra
dentro dela
Na polpa
encontro às vezes
..................a casca

Dentro do quadro
ele gostava de estar
Dentro da sala
também me sinto lá
sob meus pés
uma floresta
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