quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Fala o que você sente

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Fala o que você sente
do jeito que você dá conta
da cor que tem seu sonho
que memória você monta
O par de asas que te acompanha desde o nascimento
te faz saltar com cada vez menos frequência
ou quem sabe esses saltos mudaram de tamanho
são donos de outras esferas
outras físicas e educações
são movimentos que ultrapassam
estéticas, micro-físicas, micro-ondas
Talvez ondas pequenas não sejam também
a essência desse pendor
a essência é ôca somente
completamente vazia
a cabeça de um bebê sem cabeça
o bobs no cabelo da fantasia
Tales lá no fundo do buraco
O que você faria?
Só pode ter se masturbado
ou fez poesia
O que tem pra fazer
na boca enorme do enunciado?
Talvez a prudência esteja mesmo
em saber ouvir
escutar não com os ouvidos
perceber os sons sobretudo
com a memória
com o que há de mais torto
profundo e sem glória
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Depois do Calor

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Um cacho da História
Um vago brilho muito fino
e todo único em cada volta
à guisa de um vento curativo
um outono breve
que revela uma testa lisa
e em alguns quadros sopra
nas costas de Napoleão
Corre em que vão desse quarto?
Depois do calor do deserto
Qual a brisa?
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Kintsugi

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Depois que soprou o vento
vi que era o seu nome
vindo pelas fendas do mundo

Ficou o perfume do oriente
na camisa que eu usava
Um rastro de ouro onde eu parti
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domingo, 4 de setembro de 2016

Entre o sono e a areia

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Num piscar de olhos
uma memória com aquele azul que a distância tem
conduziu-me num leito de esteira
entre o sono e a areia

veloz como um raio
um signo de vento
mostrando os pulmões e as narinas do teu cavalo bandido
o dia do rapto

condensou como um rubi
o cristal da tua íris
o dia em que te vi
hoje essa escrita já morreu

a tinta se apagando
enfraquecendo sob o selo de um anel que eu perdi
afundou
ninguém se foi
a duna que chegou

em uma futura arqueologia dos diálogos
vai ressurgir a figura de um deus
pagão, obviamente
domava os ares
montava um furacão
em um braço carregava o seu escudo
com o outro erguia grave um chifre furado
ao pé da imagem um dente de leão
e breve, um ditado:
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sábado, 26 de março de 2016

O Âmbar

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No deserto eu vi dentes de cobre
Raios saindo da boca dos nômadas
E o sol
me deu uma constelação nas costas

Tudo isso me caiu sobre os olhos
um cisco como a realidade (ou o contrário)
Foi um deus maior
Generoso como um astro
Com prata nos ombros
e um presente de luz mineral
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ultramar

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Daqui
Os navios a noite são como foguetes
E a cidade é uma cascata de luz
pra dentro d'água
Eu piso
um caminho negro sobre o sal
querendo abrir os olhos
Nesse movimento quieto
De cruzar os mares
Pra chegar mais perto
Eu volto pra casa
E encontro meu rebanho
preso ao teto
Como se existissem para voar
mas lhes faltasse o desejo
Deito na cama
Sonho amor e ódio
E espero sempre
um corpo morto
no fundo da baía
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Passo Rápido

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A vida nesse espaço
brota na contradança
O meu recuo frente 
à saliência
O meu avanço
na direção da brecha
Cair no buraco
Numa rua de Mileto
É querer o buraco
Desvelar o ouro do erro
Dentro do meu ato
No vagão de um trem
Sumindo num túnel
No seio da terra
Eu cedo um assento
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